PORQUE SINANTRÓPICOS E NÃO PRAGAS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nossa atividade profissional tem se mantido fiel a conceitos, denominações, critérios muito antigos e tem uma grande dificuldade de se adequar às novas formas de se expressar.

 

Conceitos que ficam muito tempo arraigados em nossa cultura são difíceis de serem removidos. É claro que é uma mudança de atitude, de conceitos, de cultura. Mas temos que estar abertos a novas considerações.

 

Dentro deste princípio temos: controle, pragas, pragas urbanas, controle de pragas, praguicidas, dedetizadoras, dedetizadoras, manejo integrado de pragas e assim vai.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já faz algum tempo ouvindo uma propaganda da TIM, por sinal a TIM faz propagandas geniais e que me chamou atenção porque abordava uma questão que está bem dentro destas considerações que estou fazendo. Ela dizia assim:

 

Mudanças existem.
Alguma coisa está acontecendo!
As fronteiras estão se abrindo – É isso que está acontecendo.
E toda banda larga será inútil
Se a mente for ESTREITA

 

É tempo de mente sem fronteiras.

 

Somos profissionais da saúde, agentes de mudanças na conceituação dos profissionais que atuam na melhor qualidade de vida do indivíduo na medida em que se conceitua saúde, conforme Perkins, 1938 como sendo um estado de relativo equilíbrio, da forma e função do organismo, resultante do seu ajustamento dinâmico e satisfatório, às forças que tendem perturba-lo.

 

Descrevo palavras do eminente Professor Emilio Marcondes Ribas em sua conferência proferida em 1922, na Faculdade de Medicina da USP, 20 anos após a erradicação da febre amarela no Estado de São Paulo:

 

“Quando de todos os lados só vemos preparativos de festa, montes de flores e hymnos de alegria para solennisar a tomada de posse da mais bella das conquistas do homem, confrangese-nos deveras o coração quando nos saem pela frente moços de rosto carregado promptos a soltar a nota dissonante a despedaçar toda a synphonia do acto festivo.

 

Nas minhas veias de velho sinto que corre um sangue muito vigoroso, desde que a questão da febre amarella deu um passo decisivo. Desapareceu a mancha negra do fundo do quadro: o Brasil já é outro.

 

Nem malária nem febre amarela! Não mais separações intempestivas, não mais tanta viuvez, tantos orphans, tantas lágrimas! Em quanto importa a descoberta do papel transmissor do Anopheles e do Stegomya”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Infelizmente ele estava errado. A febre amarela e a malária continuam causando sérios danos à saúde humana. Saímos agora pouco de mais um episódio de febre amarela que ressurge a cada cinco ou sete anos. De janeiro a maio de 2017 tivemos 259 óbitos.

 

Cabe ressaltar que o ciclo urbano tem como vetor o Aedes aegypti que é a grande preocupação do sistema de saúde uma vez que quase todos os municípios do país tem sua presença constatada.

 

O Brasil tem 5.561 municípios, em 1.980 o Aedes estava presente em 12 municípios brasileiros, em 1.997 passou para 2.665 municípios, em 1.999 tínhamos 3.000 municípios infestados, em 2.015 eram 3.893 municípios.

 

 

E aí entramos nós como nosso conhecimento, técnicas, profissionalismo, competência, comprometimento para colaborar no combate a estes insetos. Este é nosso papel como profissionais da saúde, agentes de saúde.

 

Quanto a este conceito não podemos esperar a existência de uma condição estável de saúde ou de doença, mas de uma luta permanente entre o organismo, o hospedeiro e as forças ou estímulos, de natureza variada, que tentam romper o equilíbrio estabelecido ao nível que corresponde ao seu grau de saúde.

 

Torna-se, pois, indispensável a identificação das causas e a descoberta do modo como participam do processo doença, para que se torne possível uma ação efetiva, capaz de antagonizá-las e, por conseguinte, prevenir seus efeitos.

 

“Prevenir é prever antes que algo aconteça ou mesmo, cuidar para que não aconteça” (Rouquaryol, 1983).

 

O conhecimento das razões pelas quais determinadas doenças atingem uma população: o agente, o doente, o susceptível, o ambiente, os vetores, os reservatórios que afetam o processo saúde-doença torna a prevenção possível na medida em que se removem estes fatores responsáveis pela doença.

 

As doenças transmitidas por vetores/reservatórios vão além da simples relação entre agente e hospedeiro. Tem os aspectos relacionados ao agente, vetor, susceptível e o ambiente onde se relacionam. A prevenção está em remover fatores capazes de criar uma condição inadequada ao equilíbrio saúde-doença.

 

A atividade dos profissionais que realizam desinsetização e/ou desratização é uma atividade profissional inscrita no Código Brasileiro de Ocupações com o código 5199-10 como Controlador de Pragas exercendo as seguintes atividades: aplicador de inseticida, Dedetização, Descupinização, Desinfestação e Desratização.

 

Cada vez mais se exige profissionalismo e isto está claramente descrito na Portaria MTE Nº 1005 DE 01/07/2013, em seu Anexo 1 onde cria normas para os programas de aprendizagem tendo o aprendiz um perfil de 18 a 24 anos de idade com uma carga horária total do programa de no mínimo 800 horas e no máximo 1.280 horas sendo que deverão ter mais de 400 horas teóricas e menos de 640 horas além de mais de 400 horas de aulas práticas no mínimo e no máximo 880 horas. O perfil deste aprendiz será de combate às pragas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vamos analisar a palavra praga. A palavra praga é mais bem definida no campo da agricultura. Ou seja, quando é que um inseto, ou fase de sua evolução (lagarta) passa a ser denominada praga?

 

Determinado inseto, como por exemplo a lagarta do cartucho Spodoptera spp passa a ser uma praga e consequentemente, exige-se o início de controle, quando esta atinge determinada densidade populacional passando a causar prejuízo econômico, por exemplo, 10 lagartas pequenas/m2 em uma determinada cultura.

 

Usando a conceituação do Prof. Dr. Bráulio Santos da Universidade Federal do Paraná em seu trabalho Pragas das Plantas Cultivadas – A origem e a importância dos insetos como pragas das plantas cultivadas; podemos dizer que o conceito de praga está baseado em sua densidade populacional. Dependendo de seu volume inicia-se ou não seu controle, cuja continuidade dependerá de levantamentos populacionais sistemáticos observando o momento certo de se usar produtos químicos ou interrompe-los.

 

Praga agrícola ou florestal compreende uma população de organismos capazes de causar danos às plantas, seus produtos e subprodutos. O dano pode afetar o rendimento do produto ou sua qualidade, através do consumo direto dos tecidos ou órgãos da planta, frutos ou sementes, sucção de seiva, transmissão de doenças, competição por espaço e por nutrientes.

 

Por praga agrícola entende-se ainda: População de organismos que são capazes de reduzir a quantidade ou a qualidade dos alimentos, rações, forragens, fibras, flores, madeiras durante a produção, colheita, processamento, armazenagem, transporte ou uso. Na agricultura, o conceito de inseto-praga está diretamente relacionado com os efeitos econômicos produzidos pela sua alimentação nas plantas. Um só inseto jamais poderá produzir um dano que compense economicamente a sua eliminação da cultura pelo uso de um agrotóxico ou  produto fitossanitário como querem alguns e que por sinal faz parte de um Projeto de Lei que tramita na Câmara Federal.

 

Ou seja, o uso de agrotóxicos e consequentemente o combate às pragas tem também um viés econômico onde se avalia o nível de infestação a fim de se avaliar o custo operacional da aplicação de um agrotóxico. Muitas vezes não se justifica, pois o dano pela presença da praga é muito menor que o uso de produtos químicos, isto também inviabilizaria o comércio do produto com lucratividade.

 

Apenas quando a densidade populacional atinge determinada população, é que eles irão consumir uma quantidade de alimento que produzirá um prejuízo para a planta explorada pelo homem e justificaria o uso de agrotóxicos.

 

O termo praga pode ser caracterizado no sentido numérico (densidade populacional), onde uma determinada população do inseto se evidencia com seus estragos, afetando a produção. Isto quer dizer que o fato de serem observados danos nas diferentes partes vegetais, não significa que a produção foi ou será afetada.

 

 Ainda é comum no meio agronômico observar alguma confusão na conceituação dos organismos que causam danos econômicos às plantas, no entanto a matéria já foi harmonizada pela Convenção Internacional de Proteção Vegetal (CIPV) e aprovada pela 29º Sessão da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO, realizada em Novembro de 1997, a qual definiu o termo praga como: “Qualquer espécie, variedade ou biótipo de vegetal, animal ou agente patogênico prejudicial aos vegetais ou aos produtos vegetais”

 

Diferentemente do campo agrícola, em Saúde Pública o uso de inseticidas e/ou raticidas não está na dependência da densidade populacional do inseto ou rato, mas sim na sua presença ou não.

 

Quando realizamos um programa para combater insetos e/ou ratos não procuramos uma justificativa econômica, mas sim o risco de ocasionar um dano, agravo à saúde.

 

Se encontrarmos uma única barata em um buffet será suficiente para reclamarmos ao proprietário ou exigirmos providências da vigilância sanitária.

 

Se alguém for picado pela aranha marrom, Loxosceles spp, iremos levá-lo ao médico e solicitarmos o trabalho de uma desinsetizadora.

 

Uma indústria de alimentos não vai nem esperar que surja um rato para contratar uma empresa profissional, na realidade ela a contrata para que não apareça nenhum. O mesmo acontece em um hospital, um frigorífico, um restaurante.

 

Esta é uma característica da Saúde Pública, o trabalho preventivo, pois ao se combater um vetor e/ou reservatório estamos impedindo que este possa vir a transmitir alguma doença: leptospirose, hantavirose, dengue, oncocercose, febre amarela, leishmaniose, malária, zika, Chikungunya, doença de chagas, febre maculosa e tantas outras.

 

Assim, precisamos usar um termo que melhor defina estes agentes de forma mais específica. Neste sentido seria mais correto usarmos o termo sinantrópico que significa aqueles animais que convivem com o homem independentemente de sua vontade, mas encontrando aí tudo o que necessita para se desenvolver.

 

Diferentemente de animais domésticos que convivem com o homem por sua própria vontade, seja como alimento, lazer, companhia ou mesmo transporte.

 

Sinantropia (do grego: syn-, “junto” + anthro, “humano”) é a designação dada em ecologiaà relação de comensalismo estabelecida pelas espécies animais e vegetais que se instalam nos povoamentos humanos beneficiando-se das condições ecológicas criadas pela atividade humana no processo de urbanização do meio rural, florestal ou natural resultando na capacidade dessas espécies de flora e fauna para habitar em ecossistemas antropizados, adaptando-se a essas condições independentemente da vontade do homem.

Nesse contexto, espécies sinantrópicas são aquelas que colonizam habitações humanas e seus arredores retirando vantagens em matéria de abrigo, acesso a alimentos e a água.

 

Animais sinantrópicos são muitas vezes confundidos com animais domésticos já que estes também são adaptados a viver em ambientes antropizados, porém existe um fator crucial na diferenciação dessas classificações: a interferência do homem ou não na adaptação das espécies, ou seja, se o homem atuou de forma para que ocorresse uma seleção artificial, ou se essa adaptação ocorreu de forma natural.

 

A transformação de ambientes naturais em áreas urbanas e rurais modifica a flora e a fauna. A maioria das espécies nativas é extinta, mas algumas se adaptam , passando a se beneficiar do material orgânico acumulado nessas áreas por ação antrópica.

 

Essa dependência é chamada de sinantropia, e pode-se calcular o índice sinantrópico.

 

O índice de sinantropia foi um cálculo sugerido por Nuorteva, em 1963, na Finlândia que determina o grau de comportamento sinantrópico que uma espécie apresenta.

 

Neste índice considera-se a região preferida da espécie analisada, e seu comportamento alimentar e reprodutor.

O cálculo baseia-se na comparação de coletas, por exemplo, de moscas feitas na cidade, na zona rural e na zona das florestas e foi realizado através da fórmula proposta por Nuorteva (1963), que é a seguinte:

 

IS =  2a + b – 2c/2

 

a = Representa a percentagem de determinada espécie capturada na área urbana;

 

b = representa a percentagem desta mesma espécie capturada na área rural;

 

c = representa a percentagem desta mesma espécie capturada na área de mata

 

O IS varia de +100 a -100: valores positivos indicam alto grau de sinantropia e negativos revelam intolerância às alterações ecológicas decorrentes da urbanização, aversão ao ambiente humano, em graus variáveis até o limite de – 100.

 

 

 

Do resultado estabelece-se que a Mosca domestica é altamente sinantrópica.

 

Estes animais aproximaram-se do homem devido à disponibilidade de alimento e abrigo, servindo-se de frestas em paredes e forros de telhado, ou mesmo objetos empilhados em quintais para se abrigar.

 

A principal diferença entre os sinantrópicos e os animais domésticos (gatos, cães, galinhas, vacas etc.), é que estes são criados em benefício do homem, servindo como companhia, produção de alimentos, entre outros.

 

Já os sinantrópicos são indesejáveis, por poderem transmitir doenças, inutilizar ou destruir alimentos, ou sujar as residências. Entre eles estão ratos, pombos, baratas, mosquitos, entre outros.

 

Os animais sinantrópicos, como todo ser vivo, necessitam de três fatores para sua sobrevivência: água, alimento e abrigo. Alguns animais, como o morcego, onde alguns são grandes polinizadores naturais, podem adquirir a condição de sinantrópico, utilizando telhados e cantos escuros das casas como abrigo, quando seus ambientes naturais são destruídos.

 

Assim como outros mamíferos, podem ser transmissores do vírus da raiva, e apesar de existirem poucas espécies de morcego hematófagas, deve-se evitar a manipulação direta destes animais, já que todos podem morder se assustados.

 

Cabe lembrar que sob o ponto de vista de sinantrópicos e consequentemente responsáveis por agravos à saúde, morcegos e ombos podem transmitir histoplasmose, ornitose, criptococose através de suas fezes.

 

Serpentes, aranhas, escorpiões e outros também acabam se aproximando das casas quando se alteram os ecossistemas ou se penetra nestes, mas é importante lembrar que os humanos é que estão de fato se aproximando das “casas” destes animais.

 

 

O sinsntropismo parte do princípio que estes animais, mesmo sendo silvestres, ao se aproximarem das residências por destruição de seu habitat natural, passam a conviver conosco e assim passam a ser sinantropicos, pois podem causar danos à aúde.

 

Assim sendo animais silvestres podem se tornanr sinantrópicos, mas podem retornar à sua vida silvestre e assim deixam de ser sinantrópicos.

 

As espécies que exibem comportamento sinantrópico são em geral divididas em duas grandes categorias de sinantropia:

 

Eussinantropia (ou sinantropia obrigatória) — considera-se que uma espécie é eussinantrópica quando a sua ocorrência e reprodução estão limitadas, pelo menos dentro de uma determinada região climática, à sua associação com os seres humanos.

 

Os animais eussinantrópicos podem ser considerados:
Exófilos – permanecem do lado externo das residências;
Endófilos – visitam regularmente as residências.

 

Hemissinantropia (ou sinantropia facultativa) — as espécies hemissinantrópicas são encontradas preferencialmente associadas à presença humana, onde estas espécies encontram condições de vida ideais, mas ocorrem em menor grau fora dos povoamentos humanos, como por exemplo, em ambientes rurais.

 

Os animais que possuem pouca ou nenhuma afinidade com ambientes habitados são chamados de Assinantropicos.

 

Utilizando a fórmula para identificar o índice de sinantropia temos:

 

 

Então a denominação mais correta é Sinantrópicos e não Pragas. Esta é a terminologia mais adequada quando nos referimos a insetos e ratos que convivem conosco.

 

Denominação esta que vem dia a dia participando de diferentes instrumentos legais como, por exemplo:

Instrução Normativa nº 109 de 03 de agosto de 2006 do IBAMA que regulamenta o manejo e controle da fauna sinantrópica nociva.

 

Resolução RDC nº 326, de 09 de novembro de 2005 Repelentes – são formulações destinadas a repelir animais indesejáveis (sinantrópicos).

 

Instrução Normativa nº 141 , de 19 de dezembro de 2006 que revoga a IN 109 Regulamenta o controle e o manejo ambiental da fauna sinantrópica nociva.

 

NBR 15.584/2008 que trata da gestão de qualidade para a aplicação da ABNT NBR ISSO 9001:2000 para certificação de desinsetizadoras algumas vezes usa o termo sinantrópicos e outras usam o termo pragas.

 

Na maioria das vezes o sinantrópico a ser controlado já não faz mais parte de um sistema ecológico equilibrado e o conseqüente aumento populacional não tem nada a ver com desequilíbrio ambiental no sentido pleno de ecossistema.

 

O sistema ao qual passam a depender e participar é o meio humano, o antropossistema. O ambiente criado pelo homem para suprir suas necessidades e exigências não tendo absolutamente nada a ver com um ecossistema tradicional, é um novo ecossistema com relações muito especificas.

 

Este ambiente inicia quando o homem passou a usar pele de animais, o fogo, cavernas e deixando de ser nômade para ser sedentário. São momentos de mudança cultural e comportamental que passaram a trazer para mais próximo do homem insetos e ratos encontrando aí abrigo do clima e dos predadores; alimento; melhores condições de manter sua biologia; esconderijo. E nunca mais nos largaram.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Começa uma maior intimidade destes com o homem criando-se assim uma nova identidade para eles – animais sinantrópicos.

 

Há uma nova cadeia alimentar à qual estes sinantrópicos passam a fazer parte. A relação presa-predador é nova. Não há mais a relação homeostática característica dos ecossistemas naturais onde a população de ambos está na dependência da melhor capacidade de adaptação de um deles.

 

O ambiente humano cria todas as condições propícias ao crescimento da população sinantrópica, basicamente alimento, abrigo e clima e suas populações aumentam cada vez mais como também por trazerem consigo novas patologias, ressurgimento de antigas e um maior número de agravos.

 

Esta relação com o homem é uma via de mão dupla. É o homem trazendo consigo condições de subsistência para estes sinantrópicos como entrando em seu ambiente com as conseqüências desta invasão.

 

Este é o outro lado da questão.

 

Não é o ambiente onde o homem vive criando as condições para o sinantrópico e consequente aumento populacional. É a entrada do homem em ambientes equilibrados desestruturando-o e se aproximando de insetos e reservatórios existentes neste ambiente dentro de um equilíbrio natural, fazendo parte de uma nova relação entre diferentes espécies.

 

É o caso de algumas doenças causadas por vetores e reservatórios que pelo fato do homem se deslocar para áreas florestais através de caminhadas, acampamentos, hotéis fazenda, restaurantes rurais, fazendas, sítios e outros acabam criando novos ciclos epidemiológicos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando falamos em controle populacional devemos ter em mente estas duas situações para que tenhamos o cuidado de desenvolver metodologias gerenciais específicas para ambas as situações. Ou seja, os vetores e/ou reservatórios são os mesmos, mas os ambientes são diferentes e seu combate está na dependência do conhecimento das adaptações entre estes e seu ambiente.

 

Cabe aqui fazer uma referência à RDC 52 que normatiza o funcionamento das desinsetizadoras. Quando falamos em instrumento legal fica a idéia de que este instrumento nos traz informações importantes e fidedignas. Entretanto esta RDC traz uma série de informações equivocadas. Não sei se porque o legislador não entende do assunto ou porque seus consultores também não entendem. O fato é que ela está repleta de inconsistências.

 

Vejamos a que trata do assunto ao qual nos reportamos.

 

Este instrumentos legal define no do item VII que pragas urbanas são animais que infestam ambientes urbanos e no XI em que saneantes desinfestantes são produtos registrados na Anvisa, destinados à desinfestação de ambientes urbanos.

 

Em seu Art. 4°, itens III e IV define que as desinsetizadoras prestam serviços de controle de vetores e pragas urbanas e que pragas urbanas são animais que infestam ambientes urbanos.

 

O item XI define que as desinsetizadoras só podem usar saneantes desinfestantes registrados na ANVISA destinados à desinfestação de ambientes urbanos.

 

Existem pragas urbanas e rurais? Ou melhor, existem sinantrópicos urbanos e rurais?

 

A barata que encontramos em um restaurante de São Paulo, a mosca encontrada em um apartamento na Vieira Souto no Rio de Janeiro e o rato encontrado em um hospital em Porto Alegre, são os mesmos encontrados em uma granja de suínos, em uma unidade armazenadora ou em um tambo de leite.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Logo não existem sinantrópicos urbanos como também não existem rurais. São os mesmos que podem habitar um ou outro ambiente. Mesmo porque, em algumas situações o meio rural se confunde com o meio urbano.

 

Vou usar o trabalho do Agrônomo Moacir da Cruz Rocha da Universidade Federal Rural do Amazonas (Novos Conceitos De Urbano E Rural publicado 10/09/2008) e o trabalho O meio rural e o urbano.

 

A ideia de progresso surgida no século XVIII da economia clássica fazia uma diferenciação entre o meio rural e o urbano como se fossem duas entidades totalmente dissociadas onde cada uma delas tinha suas características próprias fazendo-as se diferenciarem.

 

Além disto, associava a passagem do mundo rural ao urbano como o caminho para a civilização moderna e o reconhecimento de que a humanidade avança do passado ao futuro melhorado. Em outras palavras, passando do atrasado ao moderno, do rural ao urbano, do agrícola ao industrial, do atrasado ao civilizado.

 

Porém, esta velha visão do rural já não pode ser mais sustentada. Não se trata de apagar a suposta linha divisória entre o rural e o urbano, nem de sua equivalência ao atrasado e o moderno.

 

As baratas, pulgas, ratos, moscas, mosquitos que existem numa granja de suínos, em um aviário, em um frigorífico, em uma unidade armazenadora, nas residências dos produtores, nos escritórios das empresas do frigorífico ou da fábrica de ração, em um hotel fazenda, em um restaurante colonial, ecoturismo são os mesmos que encontramos nas cidades: no mercado público, em um condomínio, dentro das residências dos citadinos, dos escritórios, dos logradouros públicos, dos restaurantes da cida

 

 

 

Quando falamos em sinantrópicos não podemos fazer esta distinção de urbano e rural.

 

Levando em conta as definições da RDC então que inseticidas iremos usar no combate a estes insetos e reservatórios nas residências, indústrias e outros da área rural?

 

E quando uma desinsetizadora for contratada para realizar o controle em um frigorífico, uma unidade armazenadora, uma granja de suínos, em um galpão de frangos e nas residências destes produtores ou nos escritórios da empresa?

 

Legalmente não poderá fazer, pois o instrumento regulador de sua atividade profissional diz que ela realiza atividade urbana.

 

Agora virou moda usar o termo Manejo Integrado de Pragas ou Controle Integrado de Pragas. Tradução errada e acabou virando moda. Vamos dar uma olhada nesta questão.

 

Ao final da década de 50, professores da Universidade da Califórnia publicaram um trabalho sobre o conceito de Integrated Pest Control, que se transformou num marco da Entomologia Aplicada.

 

No Brasil foi traduzido como Controle Integrado de Pragas – CIP.

 

Os autores propuseram uma estratégia de convivência com as “pragas”, dando oportunidade ao controle biológico natural e recomendando o controle químico quando a população da praga atingisse níveis que causassem prejuízos maiores do que  os custos de controle.

 

O IPC ou CIP tinha a ver com a participação do controle biológico natural das pragas agrícolas, fato que não ocorre nos procedimentos de desinsetização. Logo não é um conceito aplicável à desinsetização e muito menos à desratização na medida em que o combate biológico não é usado nos ambientes onde se encontram os sinantrópicos. Não quer dizer que não se possa, é possível em algumas situações, por exemplo o uso do Bti no combate ao borrachudo e mosquitos.

 

Mas esta era a ideia dentro da conceituação de CIP, usar o controle químico dentro de uma forma mais racional permitindo que o controle biológico se mantivesse. Da mesma forma que o uso de ferramentas como rotação de culturas. Isto é o CIP.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Segundo alguns autores este conceito durou uns 10 anos, seguido pelo MIP.

 

O conceito de Integrated  Pest Management surgiu logo após, onde pesquisadores australianos propuseram uma estratégia alicerçada em conhecimentos ecológicos, econômicos e sociais, visando interferir o mínimo possível no agroecossistema.

 

A proposta da Califórnia preconizava a soma racional do controle biológico com o uso de inseticidas, enquanto que a proposta da Austrália ampliava as opções de controle.
Neste sentido a idéia é reduzir o número de aplicações refletindo em economia ao agricultor bem como diminuir o impacto ambiental. Entretanto uma dificuldade que tem os países apoiadores desta estratégia é a de falta de conhecimento da praga a ser combatida e sua relação com o ambiente para se saber quando o nível de dano passa a ser indicativo de aplicação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na medida em que surge o conceito de Integrated Pest Management, traduzido no Brasil como Manejo Integrado de Pragas – MIP, este também passa a ser usado no Brasil pelas empresas especializadas, apesar de estar completamente fora do conceito original onde aliava-se ao controle considerações de órdem ecológica do inseto, aspectos econômicos de menor uso de agrotóxicos e sociais melhorando a qualidade de vida do agricultor.

 

Conhecimentos estes que levaram o pesquisador brasileiro Gravena a adotar a terminologia MEP (Manejo Ecológico de Pragas), mas, para a agricultura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ouvindo um programa de rádio onde um jurista discutia problemas relacionados com a violência infantil ele falava do risco de se traduzir determinadas palavras de forma incorreta o que poderia causar sérios transtornos no tribunal e uma destas era a tradução de Abuso Infantil traduzido de Child Abuse que na realidade significa Violência Infantil e não Abuso Infantil, mas que traduziram pela palavra mais próxima, onde abuso significa fazer repetidas vezes a mesma coisa e que não reflete a gravidade do problema.

 

Apesar desta definição estar anos luz distante do que estamos discutindo ela nos trás à razão principal que é a tradução de Management para Manejo.

 

Na década de 60 entra no Brasil o termo Manejo Integrado de Pragas. Provavelmente um agente complicador por traduzir Management como Manejo e não como Gerenciamento que seria a tradução correta.

 

Em Português Manejo significa ação ou resultado de manejar (mover, empunhar com as mãos – manejar o machado; ter conhecimento – Ela maneja bem o inglês; trabalhar com as mãos – Ele maneja bem o cavalo; manipular, dominar – manejar o eleitorado), mas também pode significar administrar, dirigir – a diretora maneja bem a escola.

 

O que na essência não estaria errado, mas a palavra gerenciar é muito mais específica e define mais claramente o significado de gerir, que é o sentido que se quer dar ao que passou a denominar Manejo Integrado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde o início deveríamos estar falando em Gerenciamento Integrado ou simplesmente Gerenciamento uma vez que está implícito em gerenciamento o conceito de Integrado ou seja a utilização de vários recursos de forma integrada e interligada.

 

Usando como exemplo o Gerenciamento de Projetos, disciplina usada para definir e atingir objetivos, otimizando o uso de recursos ( tempo, dinheiro, pessoas, materiais, energia, espaço, etc.) usando atividades como:

  • Planejamento,

  • Estimar recursos,

  • Organizar o trabalho,

  • Adquirir recursos materiais e humanos,

  • Designar atividades,

  • Controlar a execução do projeto,

  • Avaliar o progresso,

  • Analisar os resultados obtidos.

E é exatamente isto que cada desinsetizadora/desratizadora faz: a empresa recebe uma solicitação de serviço, a partir daí começa o gerenciamento.

  • Um técnico vai ao local levantar problemas como identificar o sinantrópico, entorno do local, condições de favorecimento e tantos outros;

  • Estas informações são levadas para a sede e o corpo técnico começa o planejamento das atividades a serem executadas;

  • Elegem-se os domissanitários a serem usados quanto à dose, formulação; equipamentos para se ter uma ideia dos custos materiais e operacionais que farão parte do orçamento;

  • Discute-se com a equipe qual será o melhor horário para se realizar as ações, verificar se os equipamentos estão em ordem, verificar se tem à disposição o número de funcionários necessários para a atividade;

  • A compra de insumos e contratação de pessoal é feito constantemente.

  • A equipe técnica repassa a cada um da equipe as atividades que serão exercidas;

  • Aqui entra a fase de controle que é analisar a situação antes e depois através de planilhas, gráficos, relatórios, etc.

  • De uso destes instrumentos avalia-se o trabalho e os resultados obtidos.

 

 

 

 

    O Gerenciamento de Projetos tenta controlar 5 variáveis:

     

    TEMPO –  Por questões analíticas, o tempo para concluir o projeto é dividido no tempo requerido para completar cada uma das atividades que contribuem para sua conclusão.

     

    CUSTO – É o custo do projeto, calculado a partir dos recursos utilizados.

     

    QUALIDADE – É o tempo dedicado às atividades individuais que determinam a qualidade geral do projeto.   Algumas tarefas requerem um tempo determinado para que sejam completadas adequadamente, mas com tempo adicional poderiam ser completadas com qualidade excepcional.

     

    ESCOPO – É a definição geral do que o projeto deve atingir ou uma descrição específica de qual deve ser o resultado final.

     

    RISCO – Pontos potenciais de fracasso.  A maioria dos riscos podem ser superados ou resolvidos, com suficiente tempo.

     

    Gerenciamento de projetos é a aplicação de conhecimentos, habilidades e técnicas na elaboração de atividades relacionadas para atingir um conjunto de objetivos pré-definidos, num certo prazo, com um certo custo e qualidade, através da mobilização de recursos técnicos e humanos.

     

    Gerente é a pessoa que coordena a equipe de trabalho. O gerente deve transformar oportunidades e desafios em resultados – Gerente de Sinantrópicos.

     

    No método tradicional, podemos distinguir 5 componentes no desenvolvimento de um projeto:

    1. Iniciação

    2. Planejamento

    3. Execução

    4. Controle

    5. Fechamento

    Muitas indústrias usam variações destes estágios.  Enquanto os nomes podem variar de indústria para indústria, os estágios tipicamente seguem passos comuns à resolução de problemas :

     

    Definir o problema,
    Avaliar opções,
    Escolher um caminho,
    Implementar e  Avaliar.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

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    3. http://matiassinantropicos.blogspot.com.br/2011/10/rdc-52-de-2009-parte-i.html

    4. http://matiassinantropicos.blogspot.com.br/2013/09/porque-sinantropicos-e-nao-pragas.html

    5. https://sinitox.icict.fiocruz.br/sites/sinitox.icict.fiocruz.br/files//Resolu%C3%A7%C3%A3o%20RDC%2052%20de%202009%20Anvisa.pdf

    6. https://pt.wikipedia.org/wiki/Ger%C3%AAncia_de_projetos

    7. https://brasil.pmi.org/brazil/AboutUs/WhatIsProjectManagement.aspx

    8. https://docs.ufpr.br/~parasito.florestal/arquivos/origem_praga.pdf

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    10. http://mundogeografico.sites.uol.com.br/geral02.htm

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    12. EPIDEMIOLOGIA E SAÚDE. Zélia Rouquayrol. Editado pela Universidade de Fortaleza — UNIFOR, 1983.

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    17. Ciência & Vida – Revista Leituras da História – Saúde Combate as pragas urbanas. Sucena Shkrada Resek

    18. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Cronologia histórica. Uma visão histórica da saúde brasileira, 2010.

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    20. ROCHA, M. C. . O Homem E O Meio Ambiente. 2008.

     

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