FEBRE AMARELA: O PIOR SURTO DAS ÚLTIMAS DÉCADAS

16.01.2018

APÓS A CONFIRMAÇÃO DE NOVAS MORTES NESTE MÊS NO INTERIOR DO ESTADO E NA GRANDE SÃO PAULO, ÓRGÃOS DE SAÚDE ANUNCIAM MEDIDAS PARA COMBATER A DOENÇA.

 

 

Em 2009, onze pessoas morreram no Estado de São Paulo naquele que era considerado até agora o maior surto de febre amarela das últimas décadas. Em 2017, a preocupação voltou após a doença vitimar dez pessoas em municípios do interior, como Américo Brasiliense, São João da Boa Vista e Batatais, a maioria a cerca de 300 quilômetros da capital. Pois desde o início de 2018 essa apreensão transformou-se em medo real. Do dia 1º até quarta (10), mais seis mortes foram registradas. Ou seja, em duas semanas, o vírus provocou metade do estrago que houve em todo o ano passado. Além disso, ele se aproximou bastante da capital: quatro óbitos ocorreram em Mairiporã, na Grande São Paulo.“É um surto intenso e vizinho a um grande centro urbano”, afirma o infectologista Marcos Boulos, coordenador do Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde. Em situação de alerta, centenas de paulistanos lotaram postos de saúde e clínicas privadas em busca de vacina e informações sobre a doença.

 

Parque Cemucam, em Cotia: fechado (Leo Martins/Veja SP)

 

O cenário levou autoridades das esferas federal, estadual e municipal a adotar medidas emergenciais para tentar controlar a febre amarela e o aumento do pânico. Na principal delas, o Ministério da Saúde anunciou na terça (9) uma campanha para imunizar 6,3 milhões de pessoas no estado entre os dias 3 e 24 de fevereiro. A um custo de 15,8 milhões de reais, a operação vai se estender a 53 municípios, incluindo 2,5 milhões de moradores de distritos das zonas Sul e Leste da capital.

 

Em uma atitude inédita, a população receberá uma dose fracionada da vacina, com 0,1 mililitro, 20% da padrão. Assim, até cinco pessoas serão inoculadas com a quantidade normalmente reservada a apenas uma. O aspecto negativo é que sua validade passa a ser de oito anos, quando antes se estendia à vida inteira. O objetivo é economizar os insumos. “Não sabemos a extensão do que vai ocorrer e, por precaução, estamos reservando um estoque para eventuais necessidades futuras”, explica o ministro da Saúde, Ricardo Barros. Por aqui, o governo do estado também se articula para ir além do plano federal. A ideia é vacinar todos os paulistas até o fim do ano. “Mas faremos isso de forma gradual, começando pelas regiões de maior risco e, na sequência, aproximando-nos do centro da capital”, explica Marcos Boulos. Para especialistas do setor, trata-se de uma medida bem-vinda, mas tardia. “Essa ação deveria ter-se iniciado há seis meses, no princípio da crise”, avalia o médico Maurício Nogueira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia. Há profissionais, no entanto, que alertam para os riscos envolvidos em um plano dessa magnitude. “Vacinar todo mundo parece ser o mais lógico, mas a dose pode provocar efeitos colaterais graves, ainda que raros, como causar a própria doença”, afirma o infectologista Ralcyon Teixeira, do Instituto Emílio Ribas. A prefeitura também vai expandir a área de recomendação da vacina para mais seis bairros da Zona Sul — Jardim São Luiz, Cidade Dutra, Grajaú, Pedreira, Socorro e Vila Andrade — e incluir a Zona Leste, com as regiões do Parque do Carmo, Cidade Líder, Cidade Tiradentes, Guaianases, Iguatemi, José Bonifácio, São Mateus e São Rafael. Isso deve ocorrer em fevereiro.

 

“Estamos reavaliando a circulação do vírus após o aparecimento de dez macacos mortos pela doença em Itapecerica da Serra”, explica a coordenadora do Programa Municipal de Imunização, Maria Lígia Nerger. Desde outubro, as doses estão sendo indicadas a moradores da Zona Norte. Em dezembro, entraram na lista os habitantes de partes das zonas Oeste e Sul. Hoje 131 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) oferecem o serviço, quatro vezes mais do que há alguns meses. Nesse período, mais de 1,4 milhão de pessoas foram imunizadas na capital. Na terça (9), a fila na UBS Jardim Boa Vista, na Raposo Tavares, na Zona Oeste, por exemplo, era de duas horas e meia. Outra medida adotada levou ao fechamento temporário de 26 parques municipais e estaduais, dez dos quais desde o dia 28 de dezembro, caso de Cemucam, Raposo Tavares e Linear Parelheiros. Três deles — Horto, Cantareira e Ecológico do Tietê — foram reabertos na quarta (10). Os demais serão liberados em março.

 

A cidade de Mairiporã é a que mais inspira cuidados na região metropolitana. Embora sejam quatro os óbitos registrados oficialmente por ali, o número de mortes pode até ser maior, pois há casos suspeitos sendo investigados. Alguns, inclusive, envolvendo paulistanos que passaram um curto período no município vizinho.

 

Foi o que ocorreu com o engenheiro Adelar Antonio da Silveira, de 70 anos, morador do Morumbi. Ele esteve em Mairiporã entre 23 e 28 de dezembro para passar o fim de ano com a família em uma chácara num condomínio. No dia 30, chegou ao Hospital São Luiz queixando-se de mal-estar e dores no corpo. Morreu quatro dias depois. Testes realizados em seu sangue afastaram a possibilidade de dengue, hepatite e leptospirose. O resultado para a febre amarela, a hipótese mais provável, seria concluído até sexta (12). “Ele não quis tomar a vacina com medo das reações adversas”, diz a sobrinha Bruna Gudino.

 

Bruna, sobrinha de Adelar, morto no dia 2 em Mairiporã: espera pelo resultado do teste (Leo Martins/Veja SP)

 

O risco da doença tem provocado uma corrida aos postos de saúde de Mairiporã. Na terça (9), mais de 1 000 vacinas foram entregues em um ambulatório no centro do município, 40% a mais em relação ao que havia por ali no dia anterior.

 

A procura por proteção não tem se limitado a áreas de risco. A clínica Vacinar, no Brooklin, por exemplo, atendia cerca de quinze pessoas por dia até o mês passado, e viu esse volume quadruplicar nas últimas duas semanas. “A maioria dos interessados tem viagem marcada para o interior”, diz o médico Roberto Florim, diretor da unidade.

 

Na terça (9), o Hospital das Clínicas registrou um recorde de atendimento ao ministrar a dose a 383 pessoas, mais que o triplo da média diária. “Recebemos muitos idosos que precisam de avaliação médica”, diz a infectologista Karina Miyaji, do Ambulatório dos Viajantes, unidade específica destinada a quem viajará a países que exigem o atestado da vacina. Na semana passada também havia filas de três horas em postos de saúde no Itaim Bibi e na Lapa.

 

Um raro local sem espera é a unidade da farmácia Drogasil localizada na Rua Pamplona, nos Jardins, com atendimento 24 horas, que está oferecendo a vacina para adultos por 137 reais desde 20 de dezembro. Outras dezesseis filiais da rede devem passar a executar o serviço em breve.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Centro da prefeitura na Zona Norte: análise de 202 macacos mortos (Alexandre Battibugli/Veja SP)

 

A hipótese mais aceita para o atual surto é que a doença chegou ao estado por uma rota de Mata Atlântica a partir de Minas Gerais. “Invadiu o Espírito Santo, desceu pelo Rio de Janeiro e penetrou em São Paulo por meio de cidades como Campinas e Jundiaí”, diz o coordenador do Programa Municipal de Vigilância e Controle de Arboviroses, Eduardo de Masi.

 

Para ajudarem a mapear sua circulação, especialistas monitoram os casos de morte de macacos, que também são vítimas comuns do vírus, em regiões de mata próximas à metrópole. Desde outubro, o Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres, da prefeitura, investigou 202 carcaças. Destas, 63 receberam o diagnóstico de febre amarela pelo Instituto Adolfo Lutz.  A equipe de necropsia, que atuava com duas pessoas, ganhou o reforço de mais três desde outubro, a fim de dar conta da tarefa.

 

“O trabalho triplicou com a participação da população, que tem nos avisado sobre a aparição de saguis e bugios mortos”, diz a diretora da Divisão de Fauna Silvestre da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, Juliana Summa. Segundo especialistas, as medidas dos órgãos públicos são as corretas, mas a questão só estará resolvida daqui a alguns meses. “O vírus será controlado quando 90% da população do estado estiver vacinada, meta que o governo promete atingir até o fim de 2018”, afirma o virologista Maurício Nogueira.

 

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA

 

Um guia com as principais dúvidas sobre a ação do vírus e os métodos de prevenção

 

Como a febre amarela é transmitida?

 

A doença é causada pelo vírus da febre amarela e é transmitida pela picada de um mosquito infectado. As vítimas mais frequentes são seres humanos e macacos.

 

O que são as versões silvestre e urbana?

 

A primeira é transmitida pelos mosquitos das espécies Haemagogus e Sabethes. Como eles só vivem em regiões de mata, é preciso circular por esses ambientes para correr o risco de ser inoculado. A segunda ocorre quando uma pessoa é infectada pelo Aedes aegypti, espécie comum nas cidades. Seus surtos, porém, são extremamente raros: o último registro no Brasil data de 1942.

 

Macaco em mata próxima à capital: 63 mortos pela doença (Paulalyn Carvalho/FuturaPress/Veja SP)

 

Quais são os sintomas?

 

Febre, dores musculares, cansaço, náuseas e dor de cabeça surgem de cinco a sete dias após a picada.

 

Qual o risco de morte?

 

Uma faixa de até 15% dos infectados desenvolve a versão mais grave, que pode levar à morte.

 

Quem deve ser vacinado de forma prioritária?

 

Moradores da Zona Norte, de bairros das zonas Oeste (Raposo Tavares) e Sul (Jardim Ângela, Parelheiros, Marsilac e Capão Redondo) e de 53 municípios do estado, entre eles Santo André, São Bernardo do Campo, Guarujá, Ubatuba e Praia Grande.

 

Quem viaja ao litoral precisa se imunizar?

 

Sim, porque a Secretaria da Saúde calcula que o vírus deve chegar à costa norte de São Paulo via Rio de Janeiro.

 

O que é a dose fracionada?

 

Trata-se de uma vacina com 0,1 mililitro de líquido, 20% da dose normal. Sua validade é de oito anos, enquanto a padrão imuniza para o resto da vida.

 

A dose-padrão seguirá sendo administrada?

 

Sim, para alguns grupos específicos, como crianças entre 9 meses e 2 anos de idade, portadores do vírus HIV, pessoas que terminaram o tratamento de quimioterapia, gestantes — sob orientação médica — e viajantes internacionais cujos destinos são países onde a vacina é obrigatória.

 

Quem não deve se vacinar?

 

Pacientes em tratamento de câncer, com imunossupressão, ou quem tem reação alérgica grave à proteína do ovo.

 

Quem já tomou a vacina deve repetir a dose?

 

Não é necessário.

 

Caso não se lembre?

 

Pode imunizar-se novamente.

 

Há reações adversas?

 

É comum sentir febre e dores musculares por alguns dias após tomar a vacina. Há casos raros de pessoas que adquirem a febre amarela.

 

A atual crise causou quantas mortes?

 

Desde o fim de 2017 até quarta (10) foram confirmadas dezesseis no estado, quatro delas na Grande São Paulo. Há 29 casos de pessoas com a doença.

 

Vacinação na Zona Oeste: atendimento reforçado em 131 UBSs (Alexandre Battibugli/Veja SP)

 

É o pior surto da doença nos últimos anos?

 

Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, sim. O anterior, em 2009, teve onze mortes.

 

Quantos parques foram fechados na capital?

 

Ao todo, 26 unidades foram fechadas temporariamente. A medida foi tomada após a confirmação da morte de macacos com febre amarela nesses locais. Três delas foram reabertas na quarta (10).

 

Onde se imunizar?

 

O atendimento foi reforçado em 131 UBSs nas zonas Norte, Sul e Oeste, e também é oferecido em outros 81 serviços públicos, incluindo Hospital das Clínicas e Emílio Ribas, e em clínicas particulares.

 

As clínicas particulares dispõem da mesma vacina? Qual o preço?

 

Sim. De 137 a 250 reais.

 

 

 

 

 

 

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