Município decreta emergência por febre maculosa e prepara ações para deter carrapatos

09.10.2018

Região, cortada pelo Rio Piranga, é endêmica do carrapato-estrela (EBC+Prefeitura de Santa Cruz do Escalvado)

 

A Prefeitura de Santa Cruz do Escalvado, na Zona da Mata, distante 211 quilômetros de Belo Horizonte, decretou situação de emergência na segunda-feira (1º) diante das duas mortes por febre maculosa registradas no município e confirmadas por exames feitos pela Fundação Ezequiel Dias (Funed) – a de Dalci Antônio da Silva, de 52 anos, e Milton Vieira da Silva, de 54. Na sexta-feira (28), o Bhaz fez reportagem sobre o problema.

 

Na prática, o decreto autoriza o município a fazer contratações emergenciais de pessoal para atuar na prevenção da doença, compra de insumos e outras ações necessárias, sem licitação pública, com validade de 180 dias. Pode ainda convocar voluntários a participar de ações educativas e de prevenção na comunidade devido ao surto da doença, bem como autoriza equipes de saúde e da Defesa Civil a entrar em residências para realizarem ações de vigilância epidemiológica.

 

Segundo a prefeita de Santa Cruz do Escalvado, Sônia Maria Untaler, os dois homens que morreram eram vizinhos e viviam na mesma comunidade, em Porto Plácido. “Emiti o decreto emergencial para podermos realizar ações emergenciais, para que esse surto não se espalhe na nossa população, nem para cidades vizinhas. É necessária a contratação de pessoas para atuar na zona rural, fazer limpeza na beira do rio, uma vez que 80% da nossa população está lá”, diz.

 

Segundo Sônia Maria, as primeiras ações emergenciais serão definidas nesta quarta-feira (3), numa reunião conjunta entre técnicos de saúde, financeiro e recursos humanos do município, além do professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Cláudio Lísias Mafra, médico veterinário e especialista há mais de 30 anos no carrapato causador da febre maculosa, chamado popularmente de carrapato-estrela, cujo nome científico é Amblyomma sculptum.

 

“Precisamos saber as condições que temos para atuarmos prontamente. Não estou com esperança de receber recursos do estado ou do governo federal, vamos ter de trabalhar com caixa próprio mesmo. Há 40 anos, tivemos um surto similar na região e precisamos atuar rapidamente para não termos mais mortes”, completa a prefeita.

 

Entre 2017 e 26 de setembro de 2018, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas (SES-MG) registrou 15 casos de febre maculosa no Estado e 13 mortes relacionadas à doença, das quais sete foram registradas no entorno de Divinópolis, Centro-Oeste de Minas, com casos em Itaúna (3), Igaratinga (1) e Divinópolis (3 casos).

 

 

Capivaras e outros animais hospedeiros

 

Santa Cruz do Escalvado é vizinha de Ponte Nova, Rio Casca e Barra Longa, alguns dos municípios que compõem a bacia hidrográfica do Rio Doce. O rio que corta a cidade é o Piranga, tributário do Doce, e tem às suas margens grande população de capivaras e outros animais, como cavalos, ratos e gambás, todos possíveis hospedeiros do carrapato, que se contaminado com a bactéria Rickettsia rickettsii transmite a febre maculosa.

 

“Nossa maior preocupação é que a doença não é detectada de imediato. Para chegarmos aos laudos da Funed, foi uma batalha. Temos apenas um posto básico de saúde; o hospital mais próximo está em Ponte Nova, a cerca de 15 quilômetros da comunidade Porto Plácido. Como os sintomas podem ser parecidos com o de outras doenças, não sabemos de fato quantas pessoas morreram nos últimos anos sem diagnóstico da febre maculosa”, acrescenta a prefeita.

 

Orientação básica deve ser imediata

 

De acordo com o professor Cláudio Mafra, do Laboratório de Parasitologia e Epidemiologia Molecular, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFV, o objetivo de adotar ações preventivas e educativas na comunidade de Santa Cruz do Escalvado é para reduzir de imediato o risco de que capivaras se desloquem para áreas onde há aglomerados de pessoas, orientar a população que faz uso de cavalos sobre como ter cuidado com o banho dos animais, além de uma série de outras medidas para evitar a dispersão dos carrapatos na região.

 

“Se conseguirmos diminuir oferta de alimentos para as capivaras em áreas próximas onde há muitas pessoas, os animais se afastam. Precisamos orientar crianças, jovens, adultos e profissionais de saúde sobre os riscos da febre maculosa. Como os sintomas da doença são muito similares a de outras enfermidades – dor pelo corpo, febre e dor de cabeça – é muito importante que seja investigado, já no ato da consulta, se a pessoa esteve na área rural e se se lembra de alguma picada de carrapato”, explica o professor.

 

Entre as orientações imediatas que serão passadas à população local estão:

  • Noções básicas de higiene;

  • Se entrar na mata, o que fazer com o carrapato que encontrar no corpo;

  • Fazer roçadas próximas às margens do Rio Piranga e das residências;

  • Aumentar a insolação de algumas áreas, mantendo o capim baixo, para diminuir o tempo de vida da larva, que desidrata mais rapidamente;

Segundo Mafra, o primeiro atendimento faz toda a diferença no caso da febre maculosa, para que seja definida a terapia medicamentosa, que tem eficácia de 100% caso o diagnóstico seja dado nos dois ou três primeiros dias de contato com . “O problema é que são necessários exames complementares e os laudos confirmando a febre só saem em 30 dias”, acrescenta.

 

Para detectar a febre maculosa no Brasil, os médicos só podem enviar os exames coletados para quatro laboratórios autorizados pelo Ministério da Saúde a fazer o diagnóstico: Funed, em Minas; Fiocruz (RJ), um do Paraná; e o Adolfo Lutz, em São Paulo. As amostras são distribuídas de acordo com a localização do caso, pelo MS. “Laboratórios da rede privada não tem material para fazer esse diagnóstico”, diz o professor.

 

O ciclo do carrapato

 

O ciclo de dispersão da bactéria Rickettsia rickettsii, que provoca a febre maculosa em humanos, ocorre da seguinte forma: o carrapato fêmea põe ovos e vai ter uma prole. Em cada postura, pode colocar de 7 mil a 10 mil ovos.

 

A larva do carrapato, já eclodida, pode ficar de três a 12 meses no ambiente, sem se alimentar.

 

Se o carrapato fêmea se alimentou do sangue de um algum vertebrado silvestre (gambá, rato, cavalo, capivara) que está num pico de infecção pela bactéria Rickettsia rickettsii ou se herdou da mãe a bactéria, pode passar para parte da sua prole, na chamada transmissão transovariana.

 

Se os animais estão infectados com a bactéria e o carrapato suga seu sangue, e o homem entra em contato com o carrapato, ele é contaminado e a doença se mantém nessa região.

 

Histórico regional

 

Segundo o professor Cláudio Mafra, há registros da bactéria Rickettsia rickettsii nessa região de Minas há muitos anos. “O primeiro artigo científico com diagnóstico confirmado de febre maculosa nessa região de Minas é de 24 anos atrás, quando veio a óbito uma criança de cinco anos, infectada pela Rickettsia. As estimativas que se têm no mundo sobre carrapatos são de que eles existem na natureza há 320 e 480 milhões de anos, ou seja, precedem os dinossauros e a separação dos continentes. Então, imagine a adaptação ao ambiente que esse animal tem?”, indaga.

 

Notificação compulsória

 

O Ministério da Saúde (MS) tem um guia de vigilância nacional para febre maculosa, onde elenca uma série de medidas a serem tomadas em áreas endêmicas e/ou que registrem presença do carrapato Rickettsia. Segundo o professor da UFV, Cláudio Mafra, as ações de prevenção em Santa Cruz do Escalvado vão seguir as orientações do guia do MS. “Febre maculosa é de notificação compulsória, ou seja, se ocorrer um único caso, ele tem de ser notificado nacionalmente”, diz Mafra.

 

 

 

 

 

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